Através de cartas com tom ameaçador, o
bispo Manoel Ferreira (foto), presidente
vitalício da Assembleia de Deus e deputado
federal, diz, aos pastores importantes da
igreja, que seus cargos são de confiança e
estão obrigados a apoiar o candidato por ele
indicado.
O bispo Manoel Ferreira, presidente
vitalício da Assembleia de Deus - ministério
Madureira - e deputado federal (PTB-RJ), tem
mandado cartas aos pastores importantes da
igreja, a maior denominação evangélica do
País, com cerca de 3,5 milhões de adeptos,
para pedir votos ao também pastor Dilmo dos
Santos para deputado estadual em São Paulo
nas eleições do próximo ano.
Obtida pelo jornal Estado de São Paulo, a
correspondência tem tom ameaçador e deixa
claro aos pastores presidentes de campo
(responsáveis pela administração de uma
média de 50 templos) que seus cargos são de
confiança e eles estão obrigados a apoiar o
candidato.
"Esta eleição me mostrará quem são meus
amigos e homens de confiança através dos
mapas eleitorais. (...) Oro a Deus que não
tenha nenhuma surpresa negativa, o que
evidenciaria em quebra de confiança", diz o
texto. Ferreira - que foi candidato a
vice-governador do Rio na chapa de Eduardo
Conde (PMDB), derrotado por Rosinha Matheus
em 2004, e veio a São Paulo no ano passado
apoiar a candidata do PT à prefeitura, Marta
Suplicy - determina aos pastores em outro
trecho da carta que rompam qualquer acordo
com outro político. "Mais vale a presidência
de uma igreja e a confiança de um presidente
nacional vitalício que qualquer acordo
político contra a nossa vontade."
A seguir, o dirigente conclama os
pastores a iniciar imediatamente o que chama
de "conscientização" da pré-candidatura.
"Não vamos iniciar o trabalho na época da
eleição", defende. A legislação define a
data de 6 de julho do ano de pleito, ou
seja, daqui a pouco mais de um ano, para o
início da propaganda política.
Começar a propaganda tanto tempo antes
pode render problemas ao bispo, na opinião
do presidente da comissão político-eleitoral
da OAB-SP, Sílvio Salata. "Ele se antecipou
muito e a carta é propaganda eleitoral
ostensiva, com a agravante de que há coação
e aliciamento de eleitores. Como o bispo
exerce a função pública de deputado federal
pode responder por abuso de poder político,
propaganda extemporânea e coação de
eleitores", afirmou.
Segundo o advogado, igrejas são locais
vedados para campanhas políticas, de acordo
com a minirreforma eleitoral. Eventuais
transgressores estão sujeitos a multas de R$
2 mil a R$ 8 mil. No caso da campanha
antecipada, a penalidade varia entre R$ 21
mil e R$ 53 mil.
O advogado Hélio Silveira, especialista
em legislação eleitoral, considera
antecipação de propaganda. "Citar um
candidato da forma que está na carta
configura propaganda antecipada, o que
contraria o artigo 36 da Lei 9.504. Se a
prática for reiterada, pode-se arguir abuso
de poder econômico."
Rádio
No programa Palavra de Vida na Rádio
Musical FM, do pastor Samuel Ferreira, filho
de Manoel e presidente da igreja em São
Paulo, Santos participa de todos os debates
e tem até uma vinheta que, para evitar
problemas com a Justiça Eleitoral, não o
cita como candidato, mas deixa claro que ele
é o escolhido pela instituição. "Pastor
Dilmo dos Santos é São Paulo, e com ele
vamos caminhar", diz a letra da canção.
Presidente da Assembleia de Deus em
Piracicaba, interior de São Paulo, Santos
não vê nenhuma irregularidade na propaganda
antecipada. "Esta é uma decisão interna
corporis da igreja. Eu tive minha
pré-candidatura aprovada em um congresso da
denominação em novembro do ano passado, em
Bauru. Além disso, não estou fazendo
campanha, sou apenas pré-candidato indicado
pela instituição e não temo que a carta seja
interpretada como campanha antecipada",
defendeu-se.
Segundo o pré-candidato, o cargo de
presidente de igreja é de livre nomeação do
presidente nacional. No ano passado, o
pastor foi candidato a vice-prefeito de
Piracicaba na chapa de Gustavo Hermann
(PSB), mas teve a candidatura negada pelo
Tribunal Regional Eleitoral (TRE) por ter
dupla filiação, ao PDT e ao PSB. Procurado
pela reportagem durante três dias, o bispo
Manoel Ferreira não retornou às ligações com
pedido de entrevista.
Fonte: Estadão